Patrimônio
cultural
Cristiane Grando
Escritora
e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução
Literária (Unicamp). É Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.
“O
Estado português na época de colonização [do Brasil] é um Estado
absolutista. Em teoria, todos os poderes se concentram, por direito
divino, na pessoa do rei. O reino – ou seja, o território, os
súditos e seus bens – pertence ao rei, constitui seu patrimônio.
Trata-se de um Estado absolutista, qualificado pelo patrimonialismo.
[…] Se a palavra decisiva cabia ao rei, tinha muito peso na decisão
uma burocracia por ele escolhida, formando um corpo de governo. Mesmo
a indefinição do público e do privado foi limitada por uma série
de medidas, tomadas principalmente no âmbito fiscal, com o objetivo
de estabelecer limites à ação do rei. O 'bem comum' surgia como
uma idéia nova que justificava a restrição aos poderes reais de
impor empréstimos ou tomar bens privados para seu uso.” - afirma o
historiador Boris Fausto em seu livro “História Concisa do
Brasil”.
O
“bem comum”, como anuncia Fausto, é tema de nosso interesse.
Exemplifiquemos: o Teatro Municipal de Cerquilho é uma obra de arte
pública, um “bem comum”. Por fora, tem uma beleza pouco comum,
que pode causar certo estranhamento a quem não esteja acostumado a
contemplar obras de arte do modernismo e pós-modernismo. Por dentro,
é de uma beleza estonteante. Com suas curvas, este prédio projetado
pelo renomado arquiteto Ruy Ohtake, cujo auditório é espaçoso -
com 540 lugares -, e ao mesmo tempo acolhedor, possui uma acústica
invejável. Pessoas das mais variadas idades, ao entrar neste
auditório, mesmo somente para vê-lo nos dias em que não há
espetáculo, entram num estado de êxtase, pela contemplação
inevitável do belo. Essa reação é uma das provas de que o Teatro
Municipal de Cerquilho é uma obra-prima. Mais que isso, o nosso
Teatro é um “bem comum”, insisto. Por isso, deveria ser zelado
pela população e visitantes como um dos maiores patrimônios da
região. Além disso, as atividades
- aulas, ensaios e espetáculos - que o Teatro recebe quase todos os
dias do ano constituem um patrimônio material ou imaterial, ou seja,
possuem imenso valor cultural. Em outras palavras, o Teatro Municipal
de Cerquilho é um bem material que acolhe em seu espaço interno e
externo (em eventos ao ar livre) patrimônios materiais (exposições
de pinturas e fotos) e imateriais (teatro, dança, literatura,
música) da cidade e do país, e, algumas vezes, até mesmo do
exterior.
Segundo
o “Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa”,
“patrimônio” é o “bem
ou conjunto de bens naturais ou culturais de importância
reconhecida, que passa(m) por um processo de tombamento para que
seja(m) protegido(s) e preservado(s)”. Observem bem o significado
da palavra “tombamento”. Muita gente pensa que seu significado é
“derrubar”, mas no caso do patrimônio histórico, arquitetônico
e/ou cultural, é o contrário: significa “ato ou efeito de
2tombar,
de fazer o 2tombo;
ato de se guardar alguma coisa num arquivo público”. Em outras
palavras, fazer o “tombo”, em sua segunda acepção, é montar o
“inventário dos bens de raiz com todas as demarcações; ou o
registro ou relação de coisas ou fatos referentes a uma
especialidade, a uma região
etc.”
Triste é ver que
há cerquilhenses que não reconhecem o valor dos patrimônios
materiais e imateriais, que são “bens comuns”, ou seja, que
podem e devem ser usufruídos por todos os cidadãos independente de
sua classe social, cor, sexo etc. Exemplo dessa falta de consciência:
pessoas irresponsáveis recentemente picharam as paredes do nosso bem
maior, o Teatro Municipal de Cerquilho. Isso nos alerta que os
professores e pais deveríamos reforçar o ensino de respeito aos
bens públicos, aos bens alheios e inclusive de respeito ao próximo.
Tema a ser retomado constantemente em nosso cotidiano, em casa, nas
escolas e centros culturais, até mesmo nas reuniões religiosas
(missas, cultos, ensino religioso). É nosso dever preservar os
patrimônios de Cerquilho e de nosso país, assim como respeitar os
patrimônios de povos estrangeiros, as diferenças culturais... é um
dever e um direito, terrenal e divino.
GRANDO,
Cristiane. “Patrimônio
cultural”. Fique
em Evidência.
Ed. 40, Ano 2. Cerquilho, novembro de 2013, p.28.

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