viernes, 8 de noviembre de 2013

"Patrimônio cultural"



Patrimônio cultural
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp). É Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.

“O Estado português na época de colonização [do Brasil] é um Estado absolutista. Em teoria, todos os poderes se concentram, por direito divino, na pessoa do rei. O reino – ou seja, o território, os súditos e seus bens – pertence ao rei, constitui seu patrimônio. Trata-se de um Estado absolutista, qualificado pelo patrimonialismo. […] Se a palavra decisiva cabia ao rei, tinha muito peso na decisão uma burocracia por ele escolhida, formando um corpo de governo. Mesmo a indefinição do público e do privado foi limitada por uma série de medidas, tomadas principalmente no âmbito fiscal, com o objetivo de estabelecer limites à ação do rei. O 'bem comum' surgia como uma idéia nova que justificava a restrição aos poderes reais de impor empréstimos ou tomar bens privados para seu uso.” - afirma o historiador Boris Fausto em seu livro “História Concisa do Brasil”.
O “bem comum”, como anuncia Fausto, é tema de nosso interesse. Exemplifiquemos: o Teatro Municipal de Cerquilho é uma obra de arte pública, um “bem comum”. Por fora, tem uma beleza pouco comum, que pode causar certo estranhamento a quem não esteja acostumado a contemplar obras de arte do modernismo e pós-modernismo. Por dentro, é de uma beleza estonteante. Com suas curvas, este prédio projetado pelo renomado arquiteto Ruy Ohtake, cujo auditório é espaçoso - com 540 lugares -, e ao mesmo tempo acolhedor, possui uma acústica invejável. Pessoas das mais variadas idades, ao entrar neste auditório, mesmo somente para vê-lo nos dias em que não há espetáculo, entram num estado de êxtase, pela contemplação inevitável do belo. Essa reação é uma das provas de que o Teatro Municipal de Cerquilho é uma obra-prima. Mais que isso, o nosso Teatro é um “bem comum”, insisto. Por isso, deveria ser zelado pela população e visitantes como um dos maiores patrimônios da região. Além disso, as atividades - aulas, ensaios e espetáculos - que o Teatro recebe quase todos os dias do ano constituem um patrimônio material ou imaterial, ou seja, possuem imenso valor cultural. Em outras palavras, o Teatro Municipal de Cerquilho é um bem material que acolhe em seu espaço interno e externo (em eventos ao ar livre) patrimônios materiais (exposições de pinturas e fotos) e imateriais (teatro, dança, literatura, música) da cidade e do país, e, algumas vezes, até mesmo do exterior.
Segundo o “Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa”, “patrimônio” é o “bem ou conjunto de bens naturais ou culturais de importância reconhecida, que passa(m) por um processo de tombamento para que seja(m) protegido(s) e preservado(s)”. Observem bem o significado da palavra “tombamento”. Muita gente pensa que seu significado é “derrubar”, mas no caso do patrimônio histórico, arquitetônico e/ou cultural, é o contrário: significa “ato ou efeito de 2tombar, de fazer o 2tombo; ato de se guardar alguma coisa num arquivo público”. Em outras palavras, fazer o “tombo”, em sua segunda acepção, é montar o “inventário dos bens de raiz com todas as demarcações; ou o registro ou relação de coisas ou fatos referentes a uma especialidade, a uma região etc.”
Triste é ver que há cerquilhenses que não reconhecem o valor dos patrimônios materiais e imateriais, que são “bens comuns”, ou seja, que podem e devem ser usufruídos por todos os cidadãos independente de sua classe social, cor, sexo etc. Exemplo dessa falta de consciência: pessoas irresponsáveis recentemente picharam as paredes do nosso bem maior, o Teatro Municipal de Cerquilho. Isso nos alerta que os professores e pais deveríamos reforçar o ensino de respeito aos bens públicos, aos bens alheios e inclusive de respeito ao próximo. Tema a ser retomado constantemente em nosso cotidiano, em casa, nas escolas e centros culturais, até mesmo nas reuniões religiosas (missas, cultos, ensino religioso). É nosso dever preservar os patrimônios de Cerquilho e de nosso país, assim como respeitar os patrimônios de povos estrangeiros, as diferenças culturais... é um dever e um direito, terrenal e divino.



GRANDO, Cristiane. “Patrimônio cultural”. Fique em Evidência. Ed. 40, Ano 2. Cerquilho, novembro de 2013, p.28.

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