Escrever
bem no ambiente profissional
Cristiane
Grando - Escritora;
Doutora em Letras (USP) com pós-doutorado em Tradução Literária
(Unicamp); Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.
Passamos
mais de uma década na escola e não tivemos aulas de produção de
textos. Como profissionais, somos obrigados a buscar, ao longo da
vida, formas de suprir essa deficiência em nossa formação. Em todo
campo do saber, é desejável que um profissional saiba se expressar
oralmente e por escrito. Os escritores, jornalistas e professores, em
especial, desde os primeiros anos de formação, deveríamos nos
preocupar com o aprendizado da escrita correta. Infelizmente não é
isso que se observa: nota-se a falta de domínio das regras
gramaticais e da ortografia em muitos textos publicados ou difundidos
a um grande público (nas escolas, centros culturais, Internet).
Sempre busco conscientizar os meus colegas de trabalho para que pouco
a pouco se aperfeiçoem e aprendam a se expressar por escrito com
esmero, pesquisando quando não dominam um tema e lembrando-os que é
importante ter a opinião/visão/revisão de outros sobre os seus
trabalhos. Pensemos: qual é minha responsabilidade ao escrever
textos? Apenas difundir ideias, comunicar-me com outras pessoas? Ou
devo ter consciência de meu papel como educador? Um educador é
aquele que se preocupa com o bem-estar e crescimento de sua
comunidade, mesmo que não esteja em sala de aula. Quando escrevo,
devo lembrar que outras pessoas, ao lerem meu texto, memorizarão as
palavras enquanto leem. Qual é a minha responsabilidade perante a
sociedade se escrevo errado?
As
aulas de redação deveriam ser quesito obrigatório nas escolas pois
é justo pensar que a maioria das profissões exige a comunicação
escrita. O ideal seria que as escolas oferecessem aulas de “Língua
Portuguesa: Gramática e Redação” (que discutisse as distintas
formas de uso da gramática e os diferentes efeitos que geram no
texto que está sendo escrito, não apenas em frases retiradas de
seus contextos), e de “Literatura” (que lesse e interpretasse com
os estudantes textos literários do Brasil, de Portugal e dos países
africanos de fala lusitana, realizando às vezes diálogos com
literaturas de outras línguas).
O
que fazer para suprir essa falha em nossa formação? Se não domino
as regras da gramática, devo buscar formas de aperfeiçoar a minha
escrita. Primeiro: identificar as minhas falhas ao escrever. Como?
Entregando cada texto que escrevo para profissionais e amigos (se não
puder contratar um profissional da área, um revisor de texto,
professor ou jornalista com boa formação) que corrijam meus textos.
Nos ambientes profissionais, o ideal é que três pessoas leiam e
revisem um texto antes de ser publicado. No cotidiano, deveríamos
pelo menos encontrar uma pessoa que nos acompanhasse na revisão de
cada texto que estamos escrevendo. Segundo: ao identificar falhas em
minha formação, buscar superá-las. Por exemplo, se alguém
identifica que cometo certo erro gramatical, aprender a forma
correta. A consulta a bons dicionários (Houaiss e Aurélio) e a boas
gramáticas (Celso Cunha, Pasquale Cipro Neto, etc.) é tarefa
essencial no cotidiano profissional de quem escreve. Terceiro: fazer
anotações sistematizadas do que vou aprendendo, para que, nos
momentos de dúvidas, possa consultá-las. À medida que vou me
conscientizando da importância de escrever bem, crio uma forma
particular de organizar meus estudos, o que me levará ao meu
objetivo, que é escrever textos que transmitam com clareza as ideias
que pretendo transmitir e que zelem pelo bom uso da língua.
Uma
ferramenta que auxilia no aperfeiçoamento da escrita é a leitura.
Quanto mais lemos bons textos, mais chances temos de memorizar a
ortografia e as regras gramaticais. Nesse ponto nos deparamos com
outra questão essencial: saber escolher as fontes de pesquisa, os
textos que lemos, o que ouvimos na rádio e assistimos na televisão.
Tudo isso influencia nossa forma de pensar, de ver a vida e de nos
expressar.
Assim
como foi deixado de lado o aprendizado da escrita nos últimos anos,
o expressar-se oralmente com desenvoltura é algo que o brasileiro já
não domina: muitos de nós não nos sentimos preparados para falar
em público, nem para ler um texto em voz alta. Não sabemos “ler
para outro”, a fim de que o público consiga entender claramente o
que estamos lendo em voz alta; não sabemos encontrar o ritmo de
leitura adequado para cada texto. Há algo mais belo que ouvir um
poeta ou escritor – e até mesmo um político - que sabe ler em
público, falar ou declamar poemas, seus ou alheios? A escola deveria
ser um espaço para reflexões sobre a oralidade e exercícios de
leitura em voz alta. Mas esse é um tema para outro texto.
GRANDO,
Cristiane. “Escrever bem no ambiente profissional”. Fique
em Evidência.
Ed. 37, Ano 2. Cerquilho, agosto de 2013, p.26.

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