jueves, 21 de noviembre de 2013

"Escrever bem no ambiente profissional"



Escrever bem no ambiente profissional
Cristiane Grando - Escritora; Doutora em Letras (USP) com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp); Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.

Passamos mais de uma década na escola e não tivemos aulas de produção de textos. Como profissionais, somos obrigados a buscar, ao longo da vida, formas de suprir essa deficiência em nossa formação. Em todo campo do saber, é desejável que um profissional saiba se expressar oralmente e por escrito. Os escritores, jornalistas e professores, em especial, desde os primeiros anos de formação, deveríamos nos preocupar com o aprendizado da escrita correta. Infelizmente não é isso que se observa: nota-se a falta de domínio das regras gramaticais e da ortografia em muitos textos publicados ou difundidos a um grande público (nas escolas, centros culturais, Internet). Sempre busco conscientizar os meus colegas de trabalho para que pouco a pouco se aperfeiçoem e aprendam a se expressar por escrito com esmero, pesquisando quando não dominam um tema e lembrando-os que é importante ter a opinião/visão/revisão de outros sobre os seus trabalhos. Pensemos: qual é minha responsabilidade ao escrever textos? Apenas difundir ideias, comunicar-me com outras pessoas? Ou devo ter consciência de meu papel como educador? Um educador é aquele que se preocupa com o bem-estar e crescimento de sua comunidade, mesmo que não esteja em sala de aula. Quando escrevo, devo lembrar que outras pessoas, ao lerem meu texto, memorizarão as palavras enquanto leem. Qual é a minha responsabilidade perante a sociedade se escrevo errado?

As aulas de redação deveriam ser quesito obrigatório nas escolas pois é justo pensar que a maioria das profissões exige a comunicação escrita. O ideal seria que as escolas oferecessem aulas de “Língua Portuguesa: Gramática e Redação” (que discutisse as distintas formas de uso da gramática e os diferentes efeitos que geram no texto que está sendo escrito, não apenas em frases retiradas de seus contextos), e de “Literatura” (que lesse e interpretasse com os estudantes textos literários do Brasil, de Portugal e dos países africanos de fala lusitana, realizando às vezes diálogos com literaturas de outras línguas).

O que fazer para suprir essa falha em nossa formação? Se não domino as regras da gramática, devo buscar formas de aperfeiçoar a minha escrita. Primeiro: identificar as minhas falhas ao escrever. Como? Entregando cada texto que escrevo para profissionais e amigos (se não puder contratar um profissional da área, um revisor de texto, professor ou jornalista com boa formação) que corrijam meus textos. Nos ambientes profissionais, o ideal é que três pessoas leiam e revisem um texto antes de ser publicado. No cotidiano, deveríamos pelo menos encontrar uma pessoa que nos acompanhasse na revisão de cada texto que estamos escrevendo. Segundo: ao identificar falhas em minha formação, buscar superá-las. Por exemplo, se alguém identifica que cometo certo erro gramatical, aprender a forma correta. A consulta a bons dicionários (Houaiss e Aurélio) e a boas gramáticas (Celso Cunha, Pasquale Cipro Neto, etc.) é tarefa essencial no cotidiano profissional de quem escreve. Terceiro: fazer anotações sistematizadas do que vou aprendendo, para que, nos momentos de dúvidas, possa consultá-las. À medida que vou me conscientizando da importância de escrever bem, crio uma forma particular de organizar meus estudos, o que me levará ao meu objetivo, que é escrever textos que transmitam com clareza as ideias que pretendo transmitir e que zelem pelo bom uso da língua.

Uma ferramenta que auxilia no aperfeiçoamento da escrita é a leitura. Quanto mais lemos bons textos, mais chances temos de memorizar a ortografia e as regras gramaticais. Nesse ponto nos deparamos com outra questão essencial: saber escolher as fontes de pesquisa, os textos que lemos, o que ouvimos na rádio e assistimos na televisão. Tudo isso influencia nossa forma de pensar, de ver a vida e de nos expressar.

Assim como foi deixado de lado o aprendizado da escrita nos últimos anos, o expressar-se oralmente com desenvoltura é algo que o brasileiro já não domina: muitos de nós não nos sentimos preparados para falar em público, nem para ler um texto em voz alta. Não sabemos “ler para outro”, a fim de que o público consiga entender claramente o que estamos lendo em voz alta; não sabemos encontrar o ritmo de leitura adequado para cada texto. Há algo mais belo que ouvir um poeta ou escritor – e até mesmo um político - que sabe ler em público, falar ou declamar poemas, seus ou alheios? A escola deveria ser um espaço para reflexões sobre a oralidade e exercícios de leitura em voz alta. Mas esse é um tema para outro texto.




GRANDO, Cristiane. “Escrever bem no ambiente profissional”. Fique em Evidência. Ed. 37, Ano 2. Cerquilho, agosto de 2013, p.26.

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