jueves, 6 de marzo de 2014

O sentido da medida



O sentido da medida
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).


Sonia Hirsch, jornalista e escritora voltada para a promoção da saúde, que escreve como quem cozinha e cozinha como quem escreve, afirma que as melhores coisas da vida são simples: sol da manhã, paisagens verdes, céu muito azul... e que as melhores comidas da vida também são simples. E continua: “A boa comida também remete com frequência a um ingrediente que não consta da receita. Aos elogios, quem a fez responde: 'Fiz com amor.' Soa como um segredo daquela mão, daquele coração, que ao dosar o sal e o azeite tem uma consciência aguda de sua própria medida.” (“Meditando na cozinha”. Rio de Janeiro: Corre Cotia)
“Dona Benta: comer bem”, livro tradicional da culinária brasileira ensina: “O destino das nações depende da maneira de alimentar do seu povo.” - segundo Brillat-Savarin. O ato de comer exerce em nossa vida um papel não só coletivo, mas também individual; é uma atitude cotidiana que muitas vezes realizamos com o piloto automático ligado, distraídos, sem sentir o sabor, sem exercitar os cinco sentidos. Segundo Sonia Hirsch: “Comer é pessoal e intransferível. Junta no prato história de vida, influência familiar, referências culturais, situação econômica, desejos inconscientes e sabe-se lá que temperos. […] No fim das contas, comer é alimentar-se, mas também aprender quem se é.”
Importante é ser comedido - que é uma virtude da prudência, da moderação e do respeito, a si mesmo e ao planeta. Ser comedido ao comer e intuir a medida exata ao cozinhar - como a palavra justa ao escrever, “le mot juste” em francês - são duas formas de viver em estado meditativo, concentrado no presente. Concentrado em seu corpo - se necessita de alimentação ou se estamos comendo por compulsão, o que só se consegue identificar se exercitamos com frequência o autoconhecimento - e concentrado no presente, ao decidir quais atitudes e medidas tomar ao preparar um prato, o que nos permite exercitar a observação do que acontece exteriormente e não apenas do que vivemos em nosso mundo interior. Nos versos de “o maître e o poeta”, publicados na revista número 32 da Fundação Biblioteca Nacional, “Poesia Sempre”, comparo o ato de escrever com o de preparar um bom prato: “escolher palavras/ como quem sabe/ a quantidade exata de sons/ e o modo de preparar a massa// o tempo aproximado de misturá-los/ até encontrar o ponto// como quem intui e conhece/ o jeito de mexer/ o ritmo que os ingredientes exigem das mãos/ e o olhar amoroso// a entrega tão necessária/ para que poucas palavras/ sejam poesia”. Saber escolher e medir sons, ingredientes, tempo, ritmo... e misturá-los ao amor e à entrega, que sempre é um ato amoroso.
Sobre o valor da pausa na alimentação, ou seja, o jejum, Sonia Hirsch alerta: “'O que o jejum não cura, nada cura', diz um velho provérbio alemão.” E continua dizendo que até mesmo jejuns de poucas horas entre as refeições são importantes porque dão tempo de completar a digestão e de esvaziar o estômago antes de comer novamente; que o jejum da noite é fundamental e se for de 12 horas permite que o organismo se refaça e se autodesintoxique. Hirsch aconselha que bebamos muita água fresca de manhã, bebericada aos golinhos e, para os que apreciam, que bebamos chás. Eu aconselharia: beber chá sem açúcar, o que aprendi no Chile. Sente-se melhor, assim, o seu sabor. Adoçar café e chá significa tomar boa quantidade de açúcar ao dia.
A abstinência ou privação não deixa de ser um exercício que nos ensina a valorizar o que temos. O que anuncio no início do meu livro “Fluxus”: “às vezes/ é bom sentir fome/ para só depois morrer/ de saudade”.



GRANDO, Cristiane. “O sentido da medida”. Fique em Evidência. Ed. 44, Ano 3. Cerquilho, março de 2014, p.30.

viernes, 21 de febrero de 2014

Educação alimentar



Educação alimentar
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).

Todas as vezes que comemos, deveríamos nos lembrar que várias pessoas tiveram o trabalho de plantar e colher, transportar os alimentos, vendê-los e em especial prepará-los. É um longo caminho desde a semente plantada até chegar à nossa mesa. Tendo essa consciência, o respeito pela comida deveria ser evocado todas as vezes que comemos. E mais: ter a consciência de que deveríamos, em prol da nossa saúde, mastigar mais vezes antes de engolir. Em muitos casos, observar se queremos saciar nossa fome física ou se estamos tapando buracos, ou seja, disfarçando o sono atrasado, a timidez, os problemas ou a ansiedade através do excesso de comida ou bebida. Basta ver se estamos com sobrepeso e então valeria a pena prestar um pouco mais de atenção à nossa alimentação diária. Para estes casos, seguem algumas dicas. Comer em pequenas quantidades, apreciando a comida com os cinco sentidos: observar os alimentos, o prato, a mesa, o ambiente; sentir a textura do que se mastiga ao tocar a língua e, às vezes, tomar nas mãos o que vai comer, sentindo seu volume e textura; ouvir os sons ao redor, procurando criar um ambiente de harmonia, paz e silêncio na hora de comer; prestar atenção no olfato, que é indissociável do paladar. O paladar é apenas um dos nossos sentidos; infelizmente, ao comer, nos esquecemos disso.
Se comemos cinco vezes ao dia, nosso organismo não estará desesperado de fome; a tendência é comer menos e que o corpo não absorva excessos. Quando passamos fome, tudo o que ingerimos é absorvido em grande quantidade, como uma esponja seca ao receber água; da mesma forma, ao acordar, nosso corpo funciona como uma esponja enxuta pois ficou muitas horas sem receber alimentos. Por isso é importante que o café da manhã seja saudável, evitando gorduras, doces, açúcares!
Importante é “comer para viver e não viver para comer” como diz a sabedoria popular. Saciar nossa fome e sede. Se vamos além dessa necessidade, a chance de ganhar peso é grande. Deveríamos ter o cuidado de não comer nem beber demais, em especial porque vivemos num mundo consumista que nos oferece tanta publicidade que nos incentiva a abrir a geladeira a cada instante; muitas das propagandas são enganosas, vinculando produtos com imagens paradisíacas ou com apelo ao erotismo. “Os que têm indigestões ou se embriagam não sabem comer nem beber; são os delinquentes da mesa.”, segundo Brillat-Savarin citado no livro “Dona Benta: comer bem”, livro tradicional da culinária brasileira.
De acordo com Isabel Allende, em “Afrodita: cuentos, recetas y outros afrodisíacos”: “Todos os povos, inclusive aqueles que por razões religiosas o proíbem, conhecem as propriedades medicinais do álcool. Antes de que se conhecessem outros antissépticos ou que se desenvolvesse a anestesia, se usavam bebidas alcoólicas para desinfetar feridas e para aturdir os pacientes ao fazer uma intervenção dolorosa. O seu pior defeito é que, convertido em vício, destrói quem o bebe, e a sua maior virtude é que em quantidade moderada produz ilusão de felicidade e levanta o ânimo para festejar.”
Acabamos de sair de um período de festas e muitas pessoas reclamam que engordaram na passagem do ano. Não seria o caso de nos reeducarmos e de repensar como vai a nossa relação com o que comemos e bebemos? Como digo nos versos do meu livro “Titã”: “somos exatamente/ o que comemos/ e pensamos”.


GRANDO, Cristiane. “Educação alimentar”. Fique em Evidência. Ed. 43, Ano 3. Cerquilho, fevereiro de 2014, p.30.

jueves, 9 de enero de 2014

Consumo consciente



Consumo consciente
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp). É Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.


O ano passou rápido como o voo de um falcão-peregrino, a ave mais veloz do mundo. Foi com a velocidade de 320 quilômetros por hora que ele ganhou o título de bicho mais rápido do mundo, segundo a revista “Recreio” (www.recreio.com.br, 17/05/13).

Neste ano, nossa bandeira será a do consumo consciente, tema a ser tratado em próximos textos sobre educação alimentar e nutricional, educação ambiental e educação em direitos humanos, por exemplo.

Nosso desejo de consumo será cada vez mais intenso se nos deixarmos levar pela onda de consumismo que nos ataca por todos os lados constantemente. Como afirmam Flávio Tonnetti e Arthur Meucci em “Miniensaios de Filosofia: Desejo, Vontade & Racionalidade” (Editora Vozes): “Nosso desejo é exterior a nós. Tudo que desejamos, na velocidade deste mundo moderno, nos é imposto. Somos frágeis presas expostas às luzes e formas da realidade recortada por outdoors, tevês, cinemas e páginas de revista. […] Somos enfim escravos de algo que desconhecemos, fabricados por outros cujo desejo, bem mais forte que o nosso, nos ultrapassa.” Não seria o caso de repensar nossa própria visão de mundo e de nos reeducarmos? Nós, mesmo sendo adultos, se passarmos por constantes questionamentos da nossa forma de pensar e de viver, com certeza trilharemos um caminho rumo à felicidade pessoal e social, mesmo que seja momentânea, considerando que a vida é feita de altos e baixos.

Ao invés de sermos escravos do consumismo, podemos passar a ser donos de nossas escolhas. Se posso dominar os meus desejos de consumo e escolher comprar somente aquilo de que realmente preciso para o meu bem-estar e dos que convivem comigo, serei um ser livre, apesar de ser bombardeado todo o tempo por propagandas de consumo. É claro que de vez em quando posso e devo me dar o luxo de sair da rotina, até mesmo de consumir algum artigo que não seja essencial para a minha manutenção. O importante é encontrar o equilíbrio. Mas é fundamental estar atento: não deixar que as frustrações do dia-a-dia, na velocidade acelerada em que vivemos, sejam compensadas somente com compras ou comida. Se for uma compensação com compras, corro o risco de estourar o meu orçamento; se for com comida, o perigo é que eu afete a minha saúde.

Então, o que posso fazer para compensar frustrações e até mesmo para me premiar quando consigo algum avanço em meus estudos, carreira ou em outros aspectos da minha vida? Ser sábio; pensar antes de comprar ou de comer ao invés de comprar por impulso; escolher sempre o que me proporciona qualidade de vida; não selecionar os produtos e alimentos apenas pela quantidade; praticar atividades saudáveis, recreativas, culturais, ao ar livre, como uma bela caminhada com familiares ou amigos, um piquenique num domingo em companhia das pessoas que amo. Muitas atividades não exigem nenhum centavo; somente boa vontade, disposição.

Para iniciar bem o ano, brindemos com a Valéria Pilon: Saúde! Se beber, escolha bem e beba com moderação! E citando um texto seu publicado na revista “Fique em Evidência” de novembro de 2013, comecemos o ano com poesia, como o monge beneditino Dom Pérignon, o pai da champanhe, ao descrever a sensação de sorver essa bebida que teve sua origem numa região da França chamada Champagne, da qual emprestou o nome: “Parece que estou bebendo estrelas”.


GRANDO, Cristiane. “Consumo consciente”. Fique em Evidência. Ed. 42. Cerquilho, janeiro de 2014, p.30.

lunes, 9 de diciembre de 2013

Plágio é crime



Plágio é crime
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp). É Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.

Quem plagia demonstra querer ser vencedor a qualquer preço. Desrespeitando os direitos autorais, ou seja, a criação intelectual alheia, quem se apropria de um texto ou obra de qualquer natureza, completo ou em partes, sem citar os créditos do autor, comete um crime. No Brasil, roubar ideias pode gerar punição, de acordo com o Código Penal, com detenção de 3 meses a 4 anos, ou multa.
Considerando que temos visto vários casos de plágio em concursos, seria bom retomar certos valores ao dialogar com as crianças, adolescentes e jovens, tais como a importância de elaborar um trabalho próprio valorizando o aprendizado constante, independente de que se atinja o ápice - ser o melhor ou um dos melhores -, se comparado com o trabalho de outros. Mais importante que ganhar ou ser o melhor: é participar de atividades ou concursos; é enfatizar a importância de aprender durante o desenvolvimento de um trabalho; é aplaudir aqueles que ganham por mérito; é sentir prazer durante os processos de criação; é ganhar tendo a certeza de que o trabalho é da criança/jovem e não copiado de livro(s), da Internet, ou até mesmo feito, inteiro ou em parte, pelos pais ou por outras pessoas. Educar para que sejam respeitadas as ideias alheias forma a base da educação que uma criança carregará pelo resto de sua vida.
Como pais e professores, no processo de ensino-aprendizagem (pois ensinamos e aprendemos ao mesmo tempo, tanto os professores quanto os estudantes), é necessário repetir pontos-de-vista e exemplos – inclusive ser bons exemplos -, pois a aprendizagem se dá na maioria das vezes pela repetição. Repetir sob uma mesma ótica ou com exemplos variados, mas com o objetivo a ser atingido sempre em mente: buscar mais informações, ler e ensinar sobre um ponto específico. Neste texto, por exemplo, o objetivo é discutir a questão do plágio. Tentemos entender como nossa sociedade é manipulada pelos desejos, para compreender as raízes desse e de vários problemas sociais. Atualmente, os desejos se vinculam muito mais ao ter do que ao ser. Ter não só objetos materiais, mas também reconhecimento, o que pode gerar a tentação de plagiar, ou seja, de demonstrar ser o que realmente não se é.
Discutir e repensar muitas das ideias que as crianças assimilam nas várias horas que passam em frente da televisão diariamente é nossa obrigação como educadores. Ajudá-las a desenvolver um pensamento crítico diante do que a sociedade nos oferece é uma tarefa que precisa ser aprendida desde cedo, principalmente se considerarmos que somos bombardeados com apelos de consumo, muitas vezes de objetos e serviços desnecessários ou até prejudiciais à saúde do corpo e do espírito.
De acordo com a sabedoria milenar de Epicuro (341 a.C. - 270 a.C.), em sua “Carta sobre a Felicidade (a Meneceu)”, traduzida por Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore e publicada em 2002 pela Editora UNESP: “... o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, [...] para nos afastarmos da dor e do medo.”
Quem é sábio sabe recusar o plágio, para o bem-estar do seu espírito, da sociedade e dos que vivem ao seu redor.


GRANDO, Cristiane. “Plágio é crime”. Fique em Evidência. Ed. 41, Ano 2. Cerquilho, dezembro de 2013, p.28.

jueves, 21 de noviembre de 2013

Homenagem ao artista e educador Jorge Bercht: engenheiro-arquiteto, fotógrafo, gaitista




Jorge Bercht… o Jorge da gaita

Por Cristiane Grando

O arquiteto Jorge Rugardo Bercht veio morar em Cerquilho há pouco mais de uma década. Nos conhecemos na semana de seu aniversário de 80 anos, quando ele apresentava a um grupo de novos amigos cerquilhenses cinco peças de suas “coreocromias”. Jorge foi um multiartista. De seu desejo de ser cineasta, desenvolveu, com suas fotografias, audiovisuais (coreocromias), que foram apresentados, ao longo de sua vida, na França, Alemanha, Suíça e Brasil. Suas coreocromias são danças de imagens que se fundem acompanhadas por música de épocas e estilos variados, criando um ritmo próprio para cada obra.

De ascendência alemã, o pequeno Jorge falava com seus pais, irmão e irmã em alemão, lia livros vindos da Alemanha em casa e na escola, na cidade de Porto Alegre, onde nasceu; quando menino, manteve contato constante com artistas internacionais que se apresentavam em Buenos Aires e na capital do Rio Grande do Sul. Seus pais fizeram parte do grupo que criou as condições ideais para que a capital gaúcha recebesse os espetáculos que passavam por Buenos Aires antes de ir a São Paulo e Rio de Janeiro. Muitos artistas de renome internacional se hospedaram em sua casa, por falta de hotéis naquela época; essa convivência despertou no pequeno Jorge o gosto pela arte. De seus estudos de música e de suas experiências com canto e coral surgiu o artista que dominou como poucos a arte de tocar gaita. Desde muito jovem tocava gaita em rádios no Rio Grande do Sul e chegou a ganhar um prêmio. Nesses últimos dez anos, muitos cerquilhenses ouviram o “Jorge da gaita” tocar uma dezena de gaitas que selecionava para cada ocasião, retiradas de uma coleção impressionante de mais de 40 instrumentos que ele guardava num armário antigo, que também exibia um alaúde que ele tanto estimava. Ficávamos impressionados com a qualidade da música que o Jorge despertava entre seus dedos ágeis. Certa vez, foi convidado por um amigo cerquilhense para tocar em sua casa no dia de seu aniversário, para que “os sons da gaita impregnassem as paredes”.

De sua paixão e sensibilidade pela combinação de cores e formas, formou-se engenheiro-arquiteto na Escola Politécnica da USP na década de 1950, trabalhou como arquiteto, urbanista e professor em São Paulo, fez pós-graduação na Sorbonne, em Paris, onde viveu por dois anos. Projetou casas, edifícios e escolas em estilos inusitados para a sua época, que se caracterizam em especial pelo uso do vidro para compor paredes e pela combinação de uma grande quantidade de cores em uma mesma obra arquitetônica. Orgulhoso, citava a Catedral de Nossa Senhora da Glória, que projetou em Cruzeiro do Sul (Acre), construída em 1957 em estilo germânico e com forma octogonal numa área de vegetação amazônica.

Jorge Bercht, em suas crônicas fotográficas, registrou o seu maior amor: as aventuras do cotidiano de seus filhos e netos, em festas, carnavais e em viagens de férias pela Europa e por várias partes do Brasil, numa época em que as grandes estradas estavam ainda em construção em nosso país. Demonstrava amor e orgulho ao falar de seus filhos, sempre. Tinha orgulho de contar que mandou fazer um carro enorme para suas viagens em familia, para que coubessem mãe, pai e os 10 filhos. Fotografou os filhos em preto e branco, e os netos, em cores: evolução da fotografia registrada em duas gerações. Jorge lia muito desde criança e nos últimos tempos adorava discutir sobre novas tecnologias.

Seus 91 anos de vida foram mágicos. Em 5 de agosto passado, Jorge Bercht, com a mesma suavidade que viveu a última década, partiu… cantarolando e assobiando. Partiu deste mundo mas continua vivendo em Cerquilho: foi sepultado no velório novo e segue vivendo no coração de seus familiares e amigos que aqui deixou. Como cerquilhense, agradeço sua família por ter-nos dado a honra de receber cidadão tão ilustre em nossas terras. Para o querido Jorge e sua amada família, continuaremos sempre com os braços abertos, para recebê-los calorosamente.

“Sabia que você é o melhor amigo que uma pessoa pode ter?” – foi a última pergunta que lhe fiz. Com difuculdade para falar, respondeu que “não” com a cabeça, um gesto mais de sua humildade. Concluí: “Você é o meu melhor amigo!” E lhe agradeci várias vezes por tudo o que ele fez por mim, pela minha carreira literária e pela cultura cerquilhense. Ele sorriu. Estava em paz consigo e com os demais. Assim ele se foi: em paz, deixando para trás o perdão a todos, o desapego, e no seu corpo um coração que parou suavemente de bater, o mesmo enorme coração que soube acolher tanta gente com amor.

Jorge Bercht (Porto Alegre, 1922 – Cerquilho, 2013) soube reconhecer a beleza que existe na vida cotidiana. Sua obra extensa - música, fotos, projetos arquitetônicos e coreocromias – merece ser organizada, exposta e conservada, em especial em Cerquilho, a terra que ele escolheu para viver a última década de sua vida. Suas obras são puros gestos de beleza, sensibilidade, delicadeza. Aos 91 anos, sua mente estava repleta de projetos para o futuro. Aos seus familiares e amigos deixou um imenso legado como ser humano e artista. A sabedoria e genialidade permeavam suas obras e vida cotidiana. A nós cabe reviver esses sonhos plantados por Jorge Bercht no espaço cultural Jardim das Artes, que fundamos em 2004 em Cerquilho, onde exerceu presença marcante na vida cultural. A nós o grande amigo Jorge Bercht deixou este pensamento que manteve presente em seu cotidiano até os últimos minutos: viver é sonhar.


GRANDO, Cristiane. “Jorge Bercht: o Jorge da gaita”. Fique em Evidência. Ed. 38, Ano 2. Cerquilho, setembro de 2013, p.22.


"A doença do diploma"




A doença do diploma
Paula Silva e Cristiane Grando *


Se o diploma do ensino superior na geração anterior à nossa marcava o fim dos estudos, hoje representa apenas o início de uma longa jornada. Os cursos de pós-graduação, em diversos níveis, têm se apresentado como o caminho natural de todos os que concluem a graduação e, paralelamente, as certificações e os cursos de idiomas vem sendo cada vez mais valorizados e exigidos nas empresas.
Em The Diploma Disease (A Doença do Diploma), de 1976, o sociólogo britânico Ronald Dore mostrou sua desconfiança sobre o aumento acelerado de exigências de formação e questionou: Mais diplomas significam pessoas mais bem formadas e melhores profissionais? Para ele, estas exigências fazem parte de um processo de burocratização das empresas e alta concorrência pelas vagas de emprego, o que não permitem que se conheçam as habilidades dos candidatos, sendo o diploma uma forma simples e impessoal de selecioná-los. Desse modo, haveria um período maior de escolarização por razões que não têm nem a ver com a aquisição de conhecimento real para o exercício de determinada profissão, nem com o desenvolvimento pessoal e satisfação própria daquele que se forma, uma vez que grande parte da formação está vinculada à aquisição burocrática das qualificações necessárias para conseguir emprego.
Hoje somos pressionados a atingir níveis mais altos de escolarização para realizar atividades profissionais que antes não exigiam mais do que o ensino médio. Por isso, vale a pena pensar: Será que a minha formação prioriza apenas objetivos financeiros ou também busca apreender novas formas de ver o mundo, favorecendo o autoconhecimento, algo que é tão importante para que o ser humano possa se sentir realizado em seu trabalho e em sua vida cotidiana?
* Paula Silva é Coordenadora de Cultura de Cerquilho
Cristiane Grando é Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho

SILVA, Paula; GRANDO, Cristiane. “A doença do diploma”. Fique em Evidência. Ed. 36, Ano 2. Cerquilho, julho de 2013, p.28.


"Escrever bem no ambiente profissional"



Escrever bem no ambiente profissional
Cristiane Grando - Escritora; Doutora em Letras (USP) com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp); Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.

Passamos mais de uma década na escola e não tivemos aulas de produção de textos. Como profissionais, somos obrigados a buscar, ao longo da vida, formas de suprir essa deficiência em nossa formação. Em todo campo do saber, é desejável que um profissional saiba se expressar oralmente e por escrito. Os escritores, jornalistas e professores, em especial, desde os primeiros anos de formação, deveríamos nos preocupar com o aprendizado da escrita correta. Infelizmente não é isso que se observa: nota-se a falta de domínio das regras gramaticais e da ortografia em muitos textos publicados ou difundidos a um grande público (nas escolas, centros culturais, Internet). Sempre busco conscientizar os meus colegas de trabalho para que pouco a pouco se aperfeiçoem e aprendam a se expressar por escrito com esmero, pesquisando quando não dominam um tema e lembrando-os que é importante ter a opinião/visão/revisão de outros sobre os seus trabalhos. Pensemos: qual é minha responsabilidade ao escrever textos? Apenas difundir ideias, comunicar-me com outras pessoas? Ou devo ter consciência de meu papel como educador? Um educador é aquele que se preocupa com o bem-estar e crescimento de sua comunidade, mesmo que não esteja em sala de aula. Quando escrevo, devo lembrar que outras pessoas, ao lerem meu texto, memorizarão as palavras enquanto leem. Qual é a minha responsabilidade perante a sociedade se escrevo errado?

As aulas de redação deveriam ser quesito obrigatório nas escolas pois é justo pensar que a maioria das profissões exige a comunicação escrita. O ideal seria que as escolas oferecessem aulas de “Língua Portuguesa: Gramática e Redação” (que discutisse as distintas formas de uso da gramática e os diferentes efeitos que geram no texto que está sendo escrito, não apenas em frases retiradas de seus contextos), e de “Literatura” (que lesse e interpretasse com os estudantes textos literários do Brasil, de Portugal e dos países africanos de fala lusitana, realizando às vezes diálogos com literaturas de outras línguas).

O que fazer para suprir essa falha em nossa formação? Se não domino as regras da gramática, devo buscar formas de aperfeiçoar a minha escrita. Primeiro: identificar as minhas falhas ao escrever. Como? Entregando cada texto que escrevo para profissionais e amigos (se não puder contratar um profissional da área, um revisor de texto, professor ou jornalista com boa formação) que corrijam meus textos. Nos ambientes profissionais, o ideal é que três pessoas leiam e revisem um texto antes de ser publicado. No cotidiano, deveríamos pelo menos encontrar uma pessoa que nos acompanhasse na revisão de cada texto que estamos escrevendo. Segundo: ao identificar falhas em minha formação, buscar superá-las. Por exemplo, se alguém identifica que cometo certo erro gramatical, aprender a forma correta. A consulta a bons dicionários (Houaiss e Aurélio) e a boas gramáticas (Celso Cunha, Pasquale Cipro Neto, etc.) é tarefa essencial no cotidiano profissional de quem escreve. Terceiro: fazer anotações sistematizadas do que vou aprendendo, para que, nos momentos de dúvidas, possa consultá-las. À medida que vou me conscientizando da importância de escrever bem, crio uma forma particular de organizar meus estudos, o que me levará ao meu objetivo, que é escrever textos que transmitam com clareza as ideias que pretendo transmitir e que zelem pelo bom uso da língua.

Uma ferramenta que auxilia no aperfeiçoamento da escrita é a leitura. Quanto mais lemos bons textos, mais chances temos de memorizar a ortografia e as regras gramaticais. Nesse ponto nos deparamos com outra questão essencial: saber escolher as fontes de pesquisa, os textos que lemos, o que ouvimos na rádio e assistimos na televisão. Tudo isso influencia nossa forma de pensar, de ver a vida e de nos expressar.

Assim como foi deixado de lado o aprendizado da escrita nos últimos anos, o expressar-se oralmente com desenvoltura é algo que o brasileiro já não domina: muitos de nós não nos sentimos preparados para falar em público, nem para ler um texto em voz alta. Não sabemos “ler para outro”, a fim de que o público consiga entender claramente o que estamos lendo em voz alta; não sabemos encontrar o ritmo de leitura adequado para cada texto. Há algo mais belo que ouvir um poeta ou escritor – e até mesmo um político - que sabe ler em público, falar ou declamar poemas, seus ou alheios? A escola deveria ser um espaço para reflexões sobre a oralidade e exercícios de leitura em voz alta. Mas esse é um tema para outro texto.




GRANDO, Cristiane. “Escrever bem no ambiente profissional”. Fique em Evidência. Ed. 37, Ano 2. Cerquilho, agosto de 2013, p.26.