sábado, 5 de julio de 2014

Educação em Direitos Humanos


Educação em Direitos Humanos

Texto: Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).


"Toda anistia tem o conceito de perdoar crimes políticos... tortura, estupro, desaparecimento forçado, não dá para dizer que isso é crime político. O que esses agentes fizeram são crimes contra os direitos humanos, imprescritíveis. Tortura não se anistia. É crime de lesa-humanidade." - Wadih Damous, advogado (OAB-RJ)


Com tratamento transversal e permeando todo o currículo, um dos temas tratados nas escolas brasileiras é a Educação em Direitos Humanos, descrito no Decreto nº 7.037/2009, que institui o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH 3, cujo texto, na íntegra, pode ser lido em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D7037.htm>. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948, defende, direta ou indiretamente, a diversidade, os direitos das minorias, da criança e do adolescente, da mulher, os direitos indígenas, entre outros; enfim, trata-se do reconhecimento da dignidade inerente a todos, dos direitos iguais e inalienáveis como fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo através do ensino e da educação que promovam o respeito a esses direitos e liberdades.
“Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.” - Artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que proclama o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição; o direito a uma nacionalidade; o direito de contrair matrimônio e de fundar uma família, ao ter maioridade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião; o direito à propriedade, só ou em sociedade; o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião (inclusive a liberdade de mudar de religião ou crença); o direito à liberdade de opinião e expressão (inclusive a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras); o direito à liberdade de reunião e associação pacíficas; o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos; o direito igual de acesso ao serviço público do seu país; o direito a expressar a vontade do povo em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto; o direito à segurança social e à realização dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade; a abolição da tortura, do castigo cruel, desumano ou degradante; a igual proteção da lei (a audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial; o direito de um acusado de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei); a não interferência na vida privada, na família, no lar ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação; o direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
Considerando que o desprezo e o desrespeito aos direitos humanos resultaram em atos bárbaros, em especial durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985), vale ressaltar a importância histórica da criação, em 1995, da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), uma das 21 comissões permanentes da Câmara dos Deputados, uma conquista legislativa para proteger o cidadão. Com nossas atitudes e cobrança do poder público e dos políticos em quem votamos, fortalecemos na prática o respeito aos direitos humanos.

Sugestão de leitura: Declaração Universal dos Direitos Humanos <http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm>.

GRANDO, Cristiane. “Educação em Direitos Humanos”. Fique em Evidência. Ed. 48, Ano 3. Cerquilho, julho de 2014, p.32.




jueves, 5 de junio de 2014

Educação para o trânsito



Educação para o trânsito

Texto: Cristiane Grando. Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).

“Considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga.” - Art. 1, §1 do Código de Trânsito Brasileiro


O trânsito em condições seguras é um direito de todos e assegurá-lo é um dever dos órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito. Todo cidadão, como motorista ou pedestre, deveria exigir o exercício do trânsito seguro, agindo em prol da eficiência com segurança para todos e sendo responsável em suas atitudes. O motorista responsável é aquele que se preocupa com o bem-estar dos seres humanos que leva em seu veículo e com os quais cruza em seu caminho. É nossa responsabilidade como cidadãos conscientes também controlar o nível de emissão de poluentes e ruídos produzidos pelos veículos que possuímos e/ou utilizamos.
Segundo o Art. 74 do Código de Trânsito Brasileiro: “A educação para o trânsito é direito de todos e constitui dever prioritário para os componentes do Sistema Nacional de Trânsito.” Com tratamento transversal e permeando todo o currículo, um dos temas tratados nas escolas brasileiras é a Educação para o Trânsito, obrigação descrita na Lei nº 9.503/97, que institui o Código de Trânsito Brasileiro, texto que pode ser lido na íntegra em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503.htm>. O Art. 76 estabelece que “A educação para o trânsito será promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus, por meio de planejamento e ações coordenadas entre os órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito e de Educação, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, nas respectivas áreas de atuação.”
Como ideias para melhorar o trânsito e ao mesmo tempo colaborar para a preservação do meio ambiente e da boa saúde, apresentamos o exemplo de muitas cidades da Europa que oferecem serviços de aluguel de bicicleta em vários bairros. A criação de ciclovias também é uma ação de política pública que incentiva o uso de meios de transportes não-poluentes.
Muitas pessoas que têm carros optam por usar bicicletas para a locomoção, o que contribui para a boa saúde e para a economia de recursos ambientais e pessoais. Sempre que podemos caminhar, inclusive para resolver tarefas do cotidiano, teremos a ocasião de, além de não poluir o ambiente, melhorar nossa saúde e a do nosso bolso.
“Em um país com uma forte cultura do automóvel como o Brasil, é difícil imaginar que haja mais bicicletas elétricas do que carros em algum lugar. Mas é o caso da China, gigante que frequentemente surpreende o resto do mundo com suas iniciativas, cultura e tendências.” <http://www.projetoresponsabilidade.com.br/blog/china-tem-mais-bicicletas-el%C3%A9tricas-do-que-carros>. No texto “China tem mais bicicletas elétricas do que carros”, de 26/08/2013, afirma-se que esse país tem uma forte e antiga cultura da bicicleta como meio de transporte e que as bicicletas elétricas são atrativas por conta da tecnologia, que tende a melhorar, e pelo preço, se comparado com os de outros veículos. A principal vantagem das bikes elétricas é facilitar deslocamentos longos e ajudar o ciclista a superar dificuldades com o relevo de sua cidade.
Lutemos por uma sociedade mais justa, que respeita o ser humano e o meio ambiente: no trânsito e em todos os aspectos da vida cotidiana.


GRANDO, Cristiane. “Educação para o trânsito”. Fique em Evidência. Ed. 47, Ano 3. Cerquilho, junho de 2014, p.30. 

martes, 6 de mayo de 2014

Educação ambiental




GRANDO, Cristiane. “Educação ambiental”. Fique em Evidência. Ed. 46, Ano 3. Cerquilho, maio de 2014, p.30.

Educação ambiental

Texto: Cristiane Grando. Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).

Berenice Gehlen Adams ressalta a necessidade de uma maior divulgação da Lei Nº 9.795/99, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental em nosso país, bem como das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental

Com tratamento transversal, permeando todo o currículo, um dos temas a ser tratado nas escolas brasileiras hoje é a Educação Ambiental, obrigação descrita na Lei nº 9.795/99, que dispõe sobre a Política Nacional de Educação Ambiental, que pode ser lida em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm>. Tema discutido por Berenice Gehlen Adams em seu artigo “A Importância da Lei 9.795/99 e das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Ambiental para Docentes” (ADAMS, v(10), nº 10, p. 2148 – 2157, out-dez 2012), a autora afirma que “sem o conhecimento destes documentos e de outros importantes documentos referência, a Educação Ambiental continuará a ser trabalhada de forma estanque, fragmentada, limitada a comemorações de datas como Dia da Água, Dia da Terra, Dia do Índio, Dia do Meio Ambiente, e limitada a temas como a separação de lixo, desastres ambientais e temáticas catastróficas, - que mais assustam do que educam - para o despertar de uma consciência ambiental.” Essas celebrações, segundo Naná Mininni Medina, citada por Adams, são importantes, mas “não suficientes, para desenvolver conhecimentos e valores” que permitam uma real compreensão desta questão e uma consequente mudança na forma de agir no cotidiano em busca de um mundo sustentável.

Adams sugere a promoção de minicursos para professores de todas as escolas e de diferentes níveis do ensino para vivenciarem estes importantes documentos que legitimam a Educação Ambiental no Brasil, com enfoque em uma análise crítica, para que possam auxiliar na perpetuação de ações que possibilitem a prática da Educação Ambiental de forma articulada, interdisciplinar, criando uma sociedade na qual, segundo Medina, “a conservação e a adequada utilização dos recursos naturais deve ter como objetivos a melhoria da qualidade de vida e a eliminação da pobreza extrema e do consumismo desenfreado”. Neste sentido, Adams afirma que se trata de ver a Educação Ambiental como um processo, que deve estar implícito em todas as ações educativas, promovendo a compreensão crítica e global, elucidando valores como a alteridade, a equidade, estimulando a participação, promovendo a cidadania e a consciência ambiental, com vistas a alterar costumes e posturas que priorizam o consumismo e o desenvolvimento econômico.

Citando o Artigo 14 das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Ambiental, que pode ser lida na íntegra em <http://conferenciainfanto.mec.gov.br/images/pdf/diretrizes.pdf>, Adams afirma que “a Educação Ambiental deve contemplar uma abordagem curricular que enfoque a natureza como fonte de vida e relacione ambiente e justiça social, associando a direitos humanos, saúde, trabalho, consumo, vinculados a pluralidade étnica, racial, de gênero, de diversidade sexual, e à superação do racismo, discriminação e injustiça social”.

Como contribuição poética ao processo de conscientização dos valores difundidos em Educação Ambiental, ofereço versos do livro que estou escrevendo agora, “Arvoressências”: o pessegueiro era uma ideia/ da árvore sendo casa// nossa casinha de infância/ os seus galhos/ as folhas-tijolos/ que nos protegiam do vento/ do sol, do calor intenso// os espaços entre as folhas/ eram as janelas da nossa casa:/ nossos olhos e alma (poema “a árvore da minha infância”). 

domingo, 13 de abril de 2014

Respeito e valorização do idoso



GRANDO, Cristiane. “Respeito e valorização do idoso”. Fique em Evidência. Ed. 45, Ano 3. Cerquilho, abril de 2014, p.30.
Respeito e valorização do idoso

Texto: Cristiane Grando. Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).

Segundo Aluízio Falcão, “Rembrandt passava dos 60 quando pintou seus quadros mais importantes. As obras de Bach ao envelhecer foram classificadas entre as mais belas e Beethoven superou a si mesmo nos derradeiros quartetos.” (O Estado de S. Paulo, 2006)

“Por que decaiu a arte de contar histórias? Talvez porque tenha decaído a arte de trocar experiências” - afirma Ecléa Bosi. Eu diria que tem decaído também a arte de saber ouvir. Basta observar o ambiente escolar, com estudantes pouco interessados, o ambiente doméstico, onde a maioria das pessoas vive hipnotizada em programas televisivos, jogos eletrônicos ou Internet, e os ambientes públicos, onde crianças e adultos não desviam o olhar dos seus celulares. Em outras palavras, vivemos num mundo de solidões. Na contramão, o saber ouvir o idoso tem sido cada dia mais valorizado na sociedade brasileira. Prova disso é o processo de envelhecimento, o respeito e a valorização do idoso como tema transversal das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, publicadas pelo Ministério da Educação em 2012.

Na década de 1980, uma pessoa de 50 anos ou até menos se considerava velha, o que se notava em sua forma de se vestir e se comportar. Naquela época, a palavra velho(a) não carregava conotação negativa: assumiam a velhice como algo natural. As fotos dessa década mostram pessoas com aspecto de velhas relativamente cedo. Atualmente muitos não abandonam o trabalho nem mesmo depois de aposentados e buscam estar atualizados, em especial na área tecnológica, independente da idade. Hoje o termo velho(a) assumiu conotação depreciativa: preferimos falar idoso(a), 3a idade, maturidade ou inclusive eliminar termos que marquem a passagem do tempo, afinal, a medicina (cirurgia plástica, medicamentos e complementos alimentares), a alimentação (quando equilibrada), o modo de se vestir, as atividades esportivas e das academias nos favorecem: não demonstramos a idade que temos.

Mais importante que os termos é a postura de respeito que se toma diante do outro, seja criança, mulher ou velho, “três instâncias privilegiadas das crueldades” no mundo ocidental segundo João Alexandre Barbosa no “Prefácio” do livro Memória e sociedade: lembranças de velhos de Ecléa Bosi. Igualmente, posturas de respeito às minorias e marginalizados têm sido cada dia mais valorizadas por programas governamentais no Brasil, o que, a médio e longo prazo, esperamos ver refletidas em nosso cotidiano.

No caso dos idosos, o respeito por suas experiências, maturidade e sabedoria é algo que se pode cultivar ao saber ouvi-los, pois eles têm algo a nos ensinar: a história de um país, cidade ou bairro. De acordo com Marcos Piason Natali no livro “A política da nostalgia”, no século XIX, “a memória já era vista como parte essencial de uma vida saudável e já era considerada necessária para a construção de identidades individuais e coletivas.” Saudável também é cultivar bons relacionamentos entre as gerações e ter consciência do saldo positivo dessa atitude na educação familiar e escolar: valorizar os conhecimentos transmitidos pela oralidade, pela memória individual e coletiva que resgata valores culturais e históricos, carregada de sentimentos e vivências de quem foi protagonista de uma época. Afirma Ecléa Bosi: “Um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos.”

Recomendações de leitura: Lei nº 10.741/2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos; Memória e sociedade: lembranças de velhos de Ecléa Bosi; O tempo da memória de Norberto Bobbio; A velhice de Simone de Beauvoir.

jueves, 6 de marzo de 2014

O sentido da medida



O sentido da medida
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).


Sonia Hirsch, jornalista e escritora voltada para a promoção da saúde, que escreve como quem cozinha e cozinha como quem escreve, afirma que as melhores coisas da vida são simples: sol da manhã, paisagens verdes, céu muito azul... e que as melhores comidas da vida também são simples. E continua: “A boa comida também remete com frequência a um ingrediente que não consta da receita. Aos elogios, quem a fez responde: 'Fiz com amor.' Soa como um segredo daquela mão, daquele coração, que ao dosar o sal e o azeite tem uma consciência aguda de sua própria medida.” (“Meditando na cozinha”. Rio de Janeiro: Corre Cotia)
“Dona Benta: comer bem”, livro tradicional da culinária brasileira ensina: “O destino das nações depende da maneira de alimentar do seu povo.” - segundo Brillat-Savarin. O ato de comer exerce em nossa vida um papel não só coletivo, mas também individual; é uma atitude cotidiana que muitas vezes realizamos com o piloto automático ligado, distraídos, sem sentir o sabor, sem exercitar os cinco sentidos. Segundo Sonia Hirsch: “Comer é pessoal e intransferível. Junta no prato história de vida, influência familiar, referências culturais, situação econômica, desejos inconscientes e sabe-se lá que temperos. […] No fim das contas, comer é alimentar-se, mas também aprender quem se é.”
Importante é ser comedido - que é uma virtude da prudência, da moderação e do respeito, a si mesmo e ao planeta. Ser comedido ao comer e intuir a medida exata ao cozinhar - como a palavra justa ao escrever, “le mot juste” em francês - são duas formas de viver em estado meditativo, concentrado no presente. Concentrado em seu corpo - se necessita de alimentação ou se estamos comendo por compulsão, o que só se consegue identificar se exercitamos com frequência o autoconhecimento - e concentrado no presente, ao decidir quais atitudes e medidas tomar ao preparar um prato, o que nos permite exercitar a observação do que acontece exteriormente e não apenas do que vivemos em nosso mundo interior. Nos versos de “o maître e o poeta”, publicados na revista número 32 da Fundação Biblioteca Nacional, “Poesia Sempre”, comparo o ato de escrever com o de preparar um bom prato: “escolher palavras/ como quem sabe/ a quantidade exata de sons/ e o modo de preparar a massa// o tempo aproximado de misturá-los/ até encontrar o ponto// como quem intui e conhece/ o jeito de mexer/ o ritmo que os ingredientes exigem das mãos/ e o olhar amoroso// a entrega tão necessária/ para que poucas palavras/ sejam poesia”. Saber escolher e medir sons, ingredientes, tempo, ritmo... e misturá-los ao amor e à entrega, que sempre é um ato amoroso.
Sobre o valor da pausa na alimentação, ou seja, o jejum, Sonia Hirsch alerta: “'O que o jejum não cura, nada cura', diz um velho provérbio alemão.” E continua dizendo que até mesmo jejuns de poucas horas entre as refeições são importantes porque dão tempo de completar a digestão e de esvaziar o estômago antes de comer novamente; que o jejum da noite é fundamental e se for de 12 horas permite que o organismo se refaça e se autodesintoxique. Hirsch aconselha que bebamos muita água fresca de manhã, bebericada aos golinhos e, para os que apreciam, que bebamos chás. Eu aconselharia: beber chá sem açúcar, o que aprendi no Chile. Sente-se melhor, assim, o seu sabor. Adoçar café e chá significa tomar boa quantidade de açúcar ao dia.
A abstinência ou privação não deixa de ser um exercício que nos ensina a valorizar o que temos. O que anuncio no início do meu livro “Fluxus”: “às vezes/ é bom sentir fome/ para só depois morrer/ de saudade”.



GRANDO, Cristiane. “O sentido da medida”. Fique em Evidência. Ed. 44, Ano 3. Cerquilho, março de 2014, p.30.

viernes, 21 de febrero de 2014

Educação alimentar



Educação alimentar
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp).

Todas as vezes que comemos, deveríamos nos lembrar que várias pessoas tiveram o trabalho de plantar e colher, transportar os alimentos, vendê-los e em especial prepará-los. É um longo caminho desde a semente plantada até chegar à nossa mesa. Tendo essa consciência, o respeito pela comida deveria ser evocado todas as vezes que comemos. E mais: ter a consciência de que deveríamos, em prol da nossa saúde, mastigar mais vezes antes de engolir. Em muitos casos, observar se queremos saciar nossa fome física ou se estamos tapando buracos, ou seja, disfarçando o sono atrasado, a timidez, os problemas ou a ansiedade através do excesso de comida ou bebida. Basta ver se estamos com sobrepeso e então valeria a pena prestar um pouco mais de atenção à nossa alimentação diária. Para estes casos, seguem algumas dicas. Comer em pequenas quantidades, apreciando a comida com os cinco sentidos: observar os alimentos, o prato, a mesa, o ambiente; sentir a textura do que se mastiga ao tocar a língua e, às vezes, tomar nas mãos o que vai comer, sentindo seu volume e textura; ouvir os sons ao redor, procurando criar um ambiente de harmonia, paz e silêncio na hora de comer; prestar atenção no olfato, que é indissociável do paladar. O paladar é apenas um dos nossos sentidos; infelizmente, ao comer, nos esquecemos disso.
Se comemos cinco vezes ao dia, nosso organismo não estará desesperado de fome; a tendência é comer menos e que o corpo não absorva excessos. Quando passamos fome, tudo o que ingerimos é absorvido em grande quantidade, como uma esponja seca ao receber água; da mesma forma, ao acordar, nosso corpo funciona como uma esponja enxuta pois ficou muitas horas sem receber alimentos. Por isso é importante que o café da manhã seja saudável, evitando gorduras, doces, açúcares!
Importante é “comer para viver e não viver para comer” como diz a sabedoria popular. Saciar nossa fome e sede. Se vamos além dessa necessidade, a chance de ganhar peso é grande. Deveríamos ter o cuidado de não comer nem beber demais, em especial porque vivemos num mundo consumista que nos oferece tanta publicidade que nos incentiva a abrir a geladeira a cada instante; muitas das propagandas são enganosas, vinculando produtos com imagens paradisíacas ou com apelo ao erotismo. “Os que têm indigestões ou se embriagam não sabem comer nem beber; são os delinquentes da mesa.”, segundo Brillat-Savarin citado no livro “Dona Benta: comer bem”, livro tradicional da culinária brasileira.
De acordo com Isabel Allende, em “Afrodita: cuentos, recetas y outros afrodisíacos”: “Todos os povos, inclusive aqueles que por razões religiosas o proíbem, conhecem as propriedades medicinais do álcool. Antes de que se conhecessem outros antissépticos ou que se desenvolvesse a anestesia, se usavam bebidas alcoólicas para desinfetar feridas e para aturdir os pacientes ao fazer uma intervenção dolorosa. O seu pior defeito é que, convertido em vício, destrói quem o bebe, e a sua maior virtude é que em quantidade moderada produz ilusão de felicidade e levanta o ânimo para festejar.”
Acabamos de sair de um período de festas e muitas pessoas reclamam que engordaram na passagem do ano. Não seria o caso de nos reeducarmos e de repensar como vai a nossa relação com o que comemos e bebemos? Como digo nos versos do meu livro “Titã”: “somos exatamente/ o que comemos/ e pensamos”.


GRANDO, Cristiane. “Educação alimentar”. Fique em Evidência. Ed. 43, Ano 3. Cerquilho, fevereiro de 2014, p.30.

jueves, 9 de enero de 2014

Consumo consciente



Consumo consciente
Cristiane Grando
Escritora e tradutora. Doutora em Letras (USP), com pós-doutorado em Tradução Literária (Unicamp). É Diretora do Teatro Municipal de Cerquilho.


O ano passou rápido como o voo de um falcão-peregrino, a ave mais veloz do mundo. Foi com a velocidade de 320 quilômetros por hora que ele ganhou o título de bicho mais rápido do mundo, segundo a revista “Recreio” (www.recreio.com.br, 17/05/13).

Neste ano, nossa bandeira será a do consumo consciente, tema a ser tratado em próximos textos sobre educação alimentar e nutricional, educação ambiental e educação em direitos humanos, por exemplo.

Nosso desejo de consumo será cada vez mais intenso se nos deixarmos levar pela onda de consumismo que nos ataca por todos os lados constantemente. Como afirmam Flávio Tonnetti e Arthur Meucci em “Miniensaios de Filosofia: Desejo, Vontade & Racionalidade” (Editora Vozes): “Nosso desejo é exterior a nós. Tudo que desejamos, na velocidade deste mundo moderno, nos é imposto. Somos frágeis presas expostas às luzes e formas da realidade recortada por outdoors, tevês, cinemas e páginas de revista. […] Somos enfim escravos de algo que desconhecemos, fabricados por outros cujo desejo, bem mais forte que o nosso, nos ultrapassa.” Não seria o caso de repensar nossa própria visão de mundo e de nos reeducarmos? Nós, mesmo sendo adultos, se passarmos por constantes questionamentos da nossa forma de pensar e de viver, com certeza trilharemos um caminho rumo à felicidade pessoal e social, mesmo que seja momentânea, considerando que a vida é feita de altos e baixos.

Ao invés de sermos escravos do consumismo, podemos passar a ser donos de nossas escolhas. Se posso dominar os meus desejos de consumo e escolher comprar somente aquilo de que realmente preciso para o meu bem-estar e dos que convivem comigo, serei um ser livre, apesar de ser bombardeado todo o tempo por propagandas de consumo. É claro que de vez em quando posso e devo me dar o luxo de sair da rotina, até mesmo de consumir algum artigo que não seja essencial para a minha manutenção. O importante é encontrar o equilíbrio. Mas é fundamental estar atento: não deixar que as frustrações do dia-a-dia, na velocidade acelerada em que vivemos, sejam compensadas somente com compras ou comida. Se for uma compensação com compras, corro o risco de estourar o meu orçamento; se for com comida, o perigo é que eu afete a minha saúde.

Então, o que posso fazer para compensar frustrações e até mesmo para me premiar quando consigo algum avanço em meus estudos, carreira ou em outros aspectos da minha vida? Ser sábio; pensar antes de comprar ou de comer ao invés de comprar por impulso; escolher sempre o que me proporciona qualidade de vida; não selecionar os produtos e alimentos apenas pela quantidade; praticar atividades saudáveis, recreativas, culturais, ao ar livre, como uma bela caminhada com familiares ou amigos, um piquenique num domingo em companhia das pessoas que amo. Muitas atividades não exigem nenhum centavo; somente boa vontade, disposição.

Para iniciar bem o ano, brindemos com a Valéria Pilon: Saúde! Se beber, escolha bem e beba com moderação! E citando um texto seu publicado na revista “Fique em Evidência” de novembro de 2013, comecemos o ano com poesia, como o monge beneditino Dom Pérignon, o pai da champanhe, ao descrever a sensação de sorver essa bebida que teve sua origem numa região da França chamada Champagne, da qual emprestou o nome: “Parece que estou bebendo estrelas”.


GRANDO, Cristiane. “Consumo consciente”. Fique em Evidência. Ed. 42. Cerquilho, janeiro de 2014, p.30.